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A Saúde é uma só?

Conceito, que ganhou destaque no pós-pandemia, norteia pesquisas e inspira futuro do Centro de Ciências da Saúde

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No Dia da Saúde, matéria da Revista do CCS aborda o conceito de "Uma só Saúde" | Foto: Renato Mariz (CCS/UFRJ)

por:Assessoria de Comunicação do CCS
publicado em: 05/08/2025ultima edição: 12/08/2025

A Decania do Centro de Ciências da Saúde lançou, por meio de sua Assessoria de Comunicação e Divulgação Científica, a segunda edição da Revista do CCS. A publicação busca ser uma ferramenta de divulgação científica e institucional, com foco nas atividades mais relevantes do Centro e de suas unidades. Acompanhe, também pelo site, os conteúdos produzidos na iniciativa.

Durante a pandemia de covid-19, um questionamento há muito discutido em universidades e institutos de pesquisa se tornou ainda mais desafiador: como as saúdes humana, animal e ambiental se interconectam? Esse é o cerne do conceito de “Uma Só Saúde” ou “Saúde Única”, que busca uma visão integrada e transdisciplinar ao reconhecer a interdependência entre a humanidade, os animais e o meio ambiente. Essa abordagem vem se tornando base para pesquisas no Centro de Ciências da Saúde (CCS).

Maria Cristina Schneider, professora da Universidade de Georgetown e colaboradora do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Iesc/UFRJ), conta que essa abordagem foi formalizada por instituições globais como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A definição mais atual, elaborada pelo One Health High-Level Expert Panel (OHHLEP), enfatiza que se trata de uma abordagem integrada e unificadora que visa equilibrar e otimizar, de forma sustentável, a saúde de pessoas, animais e ecossistemas.

“Estudos mostraram que cerca de 70% dos riscos infecciosos que ameaçam a saúde pública estão em interface com os animais, utilizando dados de eventos na região das Américas. Podemos dar muitos exemplos de patógenos que fizeram o transbordamento de animais para pessoas, como os vírus H1N1, Ebola e Sars-Cov-2, além de muitos outros na história da humanidade”, explica Schneider.

O tema ganha ainda mais relevância quando consideramos os fatores ambientais e socioeconômicos que facilitam o surgimento de pandemias, como desmatamento, mudanças climáticas e expansão urbana desordenada. Schneider destaca que a abordagem transdisciplinar proposta pelo OHHLEP não apenas prevê crises, mas também oferece ferramentas para mitigá-las, integrando conhecimentos da Medicina Veterinária, Epidemiologia, Ecologia e Ciências Sociais. Essa visão holística é essencial para entender, por exemplo, como a degradação de ecossistemas aumenta o contato entre humanos e animais silvestres, elevando o risco de transbordamento de patógenos.

Além disso, o conceito não se limita a zoonoses, sendo fundamental para enfrentar desafios como resistência antimicrobiana, segurança alimentar e poluição, que exigem cooperação entre setores tradicionalmente isolados. Schneider ressalta que a implementação prática desse conceito depende de políticas públicas articuladas, investimento em pesquisa e educação interdisciplinar — como as iniciativas do CCS/UFRJ. Ao unir ciência, políticas ambientais e saúde coletiva, a Saúde Única se torna um pilar para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, garantindo equidade e resiliência para as gerações atuais e futuras.

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O cuidado com o meio ambiente também é ação em saúde pública | Foto: Artur Moês (CCS/UFRJ)

No CCS/UFRJ, essa visão já orienta ações pioneiras há anos. De acordo com o professor Francisco Esteves, do Instituto de Biologia (IB) e do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade (Nupem), o CCS tem sido protagonista na implementação dessa abordagem, um reflexo do compromisso institucional com a integração entre saúde e meio ambiente. O Centro desenvolve pesquisas interdisciplinares que abordam desafios locais complexos, como os impactos na saúde das populações ribeirinhas afetadas pela indústria do petróleo em Macaé e o aumento das zoonoses e seus efeitos na saúde pública.

A formação de profissionais também é uma prioridade, com iniciativas que buscam incorporar o tema às grades curriculares. Nesse contexto, a Política de Sustentabilidade e Educação Regenerativa (SER), promovida pela Reitoria da UFRJ e coordenada por Esteves, emerge como uma iniciativa estratégica para colocar o conceito de Uma Só Saúde em prática.

“Esse programa vai além da gestão ambiental, tratando a educação como motor de transformação. O SER promove a integração entre diferentes áreas do conhecimento, desde Engenharia até Comunicação, para enfrentar desafios ambientais e sanitários. Na prática, isso se traduz em ações como a redução de resíduos no Hospital Universitário, onde são descartadas diariamente dezenas de seringas de forma inadequada, e a busca por maior eficiência energética nos campi”, conta o professor.

Ele ainda destaca que o termo “educação regenerativa”, que acompanha o nome da política, prepara os estudantes para enfrentar problemas complexos, como epidemias e mudanças climáticas, com uma visão sistêmica. Paralelamente, o CCS atua na formulação de políticas públicas, gerando conhecimento científico sobre ecossistemas locais – como manguezais e a Mata Atlântica – para promover um desenvolvimento verdadeiramente sustentável.

Mais que um conceito, a Saúde Única é um pacto pelo futuro. Na UFRJ, ela se traduz em pesquisas que salvam vidas, políticas que regeneram ecossistemas e profissionais preparados para crises globais. Um modelo que prova: quando ciência e sociedade se unem, a saúde – de fato – é uma só.

Leia a Revista do CCS na íntegra.